Sete da manhã. Ela acordou, mas ainda estava tentando se lembrar de quem era, onde estava, e que dia era. Só acordou de fato quando, ao se levantar, deu uma topada no criado-mudo. Daí, depois de uma série de palavrões, tudo voltou ao normal. Seu quarto, que por dias parecia sempre tão escuro, naquele dia estava muito claro. O Sol estava forte, deixando uma bela iluminação através daquelas cortinas de cor amarelo bem clarinho.Porém ela nem notou. A dor da topada lhe lembrou de outra dor: e a dor era de um caso que aconteceu há tanto tempo que nem ela entendia porque ainda lembrava daquilo.— Ah, é... Hoje fazem oito anos em que o conheci.E não tinha como não lembrar. Os dois se conheceram num acidente de carro. Ele, sempre impulsivo, acelerou o carro para que ainda pudesse passar antes que o sinal ficasse vermelho. Ela, também impulsiva, tocou de ir em frente assim que o seu sinal tornou-se verde. A batida foi até feia, mas eles nada sofreram, só seus automóveis... E as mães de ambos, que foram xingadas à exaustão. Quem poderia imaginar que dali nasceria um caso de amor?Porém o que ela não imaginaria mesmo era que os dois estariam afastados depois de anos. Parecia algo impossível na época, inimaginável... Mas lá estava ela, sozinha, em casa. Arrumando a cama, sozinha. Tomando banho, sozinha. Deixando um recado na secretária eletrônica da casa da mãe, entrando em seu carro, indo para o trabalho... Sozinha, sozinha, sozinha...Ao parar em um cruzamento, ela decide conferir a maquiagem. Ensaia um sorriso, e ao olhar-se no espelho, acha-se patética. Ela então leva um susto ao ver um garoto batendo na janela de seu carro. Ela então viu que ele tinha uma rosa nas mãos.— Quer uma rosa, moça?A cara ficou ainda mais azeda. Ela então lembrou porque o dia era ainda mais marcante: tudo havia acontecido no dia 12 de junho. Ironia da vida é pouco pra explicar tudo isso.Ela suspirou. E decidiu comprar uma rosa, custava só um real mesmo. Ao ter a rosa em mãos, ela lembrou da época de escola, em que os alunos voltavam com uma rosa feita de papel crepom, e todas ela sempre deu ao pai. Ela então riu, pensando em como ele iria encarar receber uma rosa da filha com trinta e poucos anos de idade. Bons tempos em que não havia muito com o que se preocupar, a não ser em ser feliz.Ao passar por uma padaria, sentiu fome. Lembrou que havia saído sem tomar café, então decidiu parar ali. Era uma padaria de bairro, mas era bem abastada. E por estar perto de uma rua cheia de escritórios, estava lotada de gente que estava se dirigindo ao trabalho. A fila até que estava grande, mas ela decidiu encarar. O café ela tem certeza que devia ser bom, estava todo mundo comprando, tomando e saindo com o maior dos sorrisos. Para quem trabalha um dia inteiro, café faz esse tipo de milagre. Além do café ele pensou em comprar algum croissant. Mas as tortas também pareciam muito boas, especialmente a de chocolate e maracujá. Mas maracujá lhe dava muito sono, e ela não precisava disso. Talvez a torta de chocolate e coco fosse melhor, ou então....— Cristiane, é você?Ela reconheceu a voz de imediato. “Pelo amor de Deus... Isso é muita sacanagem!”. Ela pensou em como fugir da situação: espancar o coitado sem dó, até que a polícia viesse tirá-la de cima de seu cadáver? Roubar o café quente de alguém e jogar em cima dele, para que isso lhe desse tempo de fugir? Ou então, a saída mais polida, e mais sofrível:— Eu mesma.— Como está mudada!— Estou, é? Você também...E como! Especialmente se tratando do físico. Perdeu o quê, uns vinte quilos? Estava bem, muito bem. Tão bem que era horrível ter que admitir. O sorriso então, mesmo tímido, parecia muito sincero. Até mais do que quando estavam juntos.— Obrigado. Pilates! — respondeu ele, como se adivinhasse o pensamento dela.— E obrigada. Dez horas de trabalho que destruíram meu relógio biológico! — ela justificou.— Mesmo? Você está muito bonita. Pelo visto ainda tem tempo para se cuidar.— Não que eu ache que ficar sem comer seja uma coisa boa, mas obrigada.Por um momento parecia que as coisas entre eles estavam bem, muito bem. Era até bom para ela vê-lo sorrindo. Parecia tão animado. Fazia tempo que ela não o via assim. Ao mesmo tempo que isso era até entristecedor para ela, ao pensar que ela talvez fosse a culpada por tais épocas mais desanimadoras, era bom saber que ele estava bem.— Pintou o cabelo?— Ah, eu clareei ele anos atrás. Não é bem uma novidade.— Para mim é. Fica muito bem loira.O elogio lhe espantou. Especialmente pelo olhar que acompanhou tal fala. Agora ela se sentia muito especial. Em anos de namoro ele mal reparava nessas coisas. Ela começou a pensar se os relacionamentos eram sempre assim: melhor ainda depois que terminavam. Poderia ser outra ironia da vida? Uma segunda chance naquele mesmo dia?— De quem é essa rosa na sua mão? — ele perguntou. Ela então notou que havia trazido a rosa consigo. A rosa que comprou. Ele continuou: — Já arrumou outra pessoa? Está namorando?— Não, não...— Casada?Ela levou um susto e respondeu de supetão:— Não! Não... Não mesmo!Ele riu. Os dois riram.— Creio que esteja esperando para dar essa rosa a alguém especial, presumo? — ele inquiriu.— Pode ser...Ela decidiu então tirar uns minutinhos para sentar e conversar com ele. Ele então contou que após se separarem ele voltou ao curso de Direito que havia trancado. Passou com louvor na OAB e agora representava uma companhia, que era até bem perto de onde ela trabalhava.— Que coincidência! Fica no mesmo quarteirão... — ele exclamou.— Pois é. E estranho é que nunca trombei com você durante esses anos...— Verdade. Estranho. — concordou ele.Ao se entreolharem por algum tempo, ele então segurou no seu braço, e aos poucos sua mão deslizou para a dela.— Você continua a mesma. Mudou, mas continua a mesma. — ele comentou baixinho.— Como assim?— O seu toque.Ela enrubesceu. E ficou pensando no que poderia falar. A situação era surreal demais para ser verdade. Será que é sempre assim? Ou talvez fosse coisa do destino, coisa que estava planejada: uma segunda chance que seria a definitiva, uma redenção para todos aqueles anos de tristeza. Ela olhava para as mãos dadas e não acreditava. O toque dele continuava também o mesmo. E aquela mão... Aquele dedo... Aquela marca de anel no dedo anular...Ele então se espantou com a rapidez que ela tirou sua mão debaixo da dele. O rosto parecia neutro, então ele ficou confuso:— Algo errado?— Eu... Eu tenho que ir. Vou me atrasar.— Entendo. — ele então tomou a rosa que ela havia repousado na mesa. — Podemos nos encontrar em algum dia? Adoraria conversar mais, pra matar as saudades, você sabe, e...— Que dia é hoje, Adriano? — ela interrompeu-o, perguntando com um olhar sério.— Ué... Impossível não lembrar. É doze de junho, dia dos namorados! — ele respondeu, dando uma piscadela.Ela então nada mais disse. Deu apenas um sorriso, pegou seu copo de café e saiu. Antes, tomou a rosa das mãos dele e logo entrou em seu carro. De fato, ela estava prestes a se atrasar, mas como ela era do tipo que raramente se atrasava ou faltava no trabalho (só não aparecia se estivesse muito doente), ela decidiu que um dia de atraso não faria mal. Especialmente se tais minutos fossem gastos para um pequeno desvio. É que o dia era importante, não dá para se adiar uma demonstração de amor e afeto de tamanha importância:— Pai!... Pra você!...






























































