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Pelo direito de ser você mesmo nas redes sociais

Estou escrevendo isso para expôr a minha opinião depois de uma discussão - que pelo que observei, na boca de alguns saiu mesmo foi uma uma cadeia de achismos e falso moralismo - sobre como se agir nas redes sociais, já que agora elas são fontes de observação dos RHs de empresas para seleção de emprego, sem falar que até mesmo o próprio chefe ou assistente lhe adiciona para ficar mais "atento" ao que o seu precioso empregado faz. E me desculpem, mas isso para mim não é indicativo de que é preciso mais "maturidade" no uso das redes sociais. Isso me soa mais como cerceamento da liberdade de expressão.

É fato: está nas redes sociais quem quer, e cada um fala o que quer. E claro, como na vida real, concordo que todo mundo seja responsável pelo que fala. E para mim isso é importante: ter opinião, doa a quem doer. Muitas vezes o que percebo é que sempre quando fazem pressão lembram que nossos perfis em Facebook e Twitter são vigiados consultados pelas empresas, isso faz com que não apenas "tome mais cuidado" com o que posta, isso faz com que muitos construam uma imagem daquilo que não são. E isso me faz pensar: afinal, as empresas estão me contratando pelas minhas capacidades de trabalho, ou estão comprando a minha personalidade?

No caso mais específico deste que vos escreve, um estudante de jornalismo, a coisa é ainda mais complicada. Quero contar um caso meu: lembro bem que em uma entrevista de estágio que eu tive, a entrevistadora ficou chocada porque eu tinha no currículo que participava do site Gay.com.br. Ela sequer falava o nome do site, ela sempre se referia a ele como "esse site". Não sei se estou sendo muito idiota, ou pedante, mas se eu ouvisse uma pessoa dizer que participava de um site de notícias com um lado forte de ativismo (direitos humanos/gays) escrevendo notícias, e de graça, eu já pensaria que a pessoa tem comprometimento com o que gosta, não? E eu gosto de escrever, e informar pessoas, repassar notícias no processo. E ouvir respostas sobre elas também. Mas enfim, não fui selecionado. E pode parecer mania de perseguição, mas para algumas empresas, onde os contratados precisariam ter um visual mais "clean" e "normal", com certeza eu fui rejeitado pelos posts que fiz aqui (o aviso de 18 anos espanta muita gente, tenho certeza) e porque colaborei em um site gay. Isso e meu visual nada convencional - o black power. Definitivamente não é em qualquer empresa tacanha que eu trabalharia, porque eu sei que há muito preconceito sobre o que sou por conta do que posto no blog, site, ou nas redes sociais. E não pensem que ao falar isso eu tiro a minha responsabilidade sobre o que falo, muito pelo contrário. Se eu falo, faço questão de que saibam que eu falei. Dou minha cara à tapa. Tanto que é minha foto, meu e-mail (pessoal) e perfis de redes sociais que estão linkados aí do lado. Não estou me escondendo atrás de perfil fake.

É engraçado: como jornalista, eu deveria ter a responsabilidade de não me calar diante de um fato, mas vejo que determinadas empresas não respeitam isso. Daí eu lembro do caso do jornalista Felipe Milanez, que foi demitido do cargo de editor da revista National Geographic Brasil porque ele twittou palavras de repúdio contra a matéria da Veja chamada "A farra da antropologia oportunista". Tal matéria falava - no melhor "estilo Veja", como devem imaginar - sobre a demarcação de terra dos indígenas e de quilombolas, e foi vista com muito desagrado pelos antropólogos, lembro  até que um professor meu inclusive passou um começo de aula inteiro vociferando contra tal texto. Ambas as revistas são de responsabilidade da Abril, e após o acontecimento, uma penca de jornalistas ficaram indignados com tal demissão. De início Felipe Milanez parece que ficou chateado com tal situação, mas depois disse:

"Não estou arrependido porque nunca imaginei que minha opinião pudesse causar uma reação tão drástica. Talvez eu tenha sido ingênuo, mas quem defende índio tem que estar com a cabeça preparada para levar paulada".

Não posso mentir... Admiro muito esse cara. Foto: Laís Souza.

E penso: será que hoje Felipe Martinez está remoendo essa situação até hoje? Quem saiu perdendo? A fama da revista Veja está aí, tem gente que não hesita em dizer que o seu conteúdo é completo desperdício de tinta e papel. Milanez é advogado e mestre em ciência política numa universidade francesa. Morrer de fome ele não vai. É questão de princípios, de preservar seu direito de falar, ter expressão. Mas tem gente que abdica disso pra parecer "normal", ou de pelo menos manter seu empreguinho. Cada um sabe quanto vale a sua moral... $$$$$$

Não vou dizer que nasci sabendo tudo de redes sociais. Desde meu primeiro blog em 2003 até aqui aprendi muita coisa. Eu já fui troll sem querer. Já abusei do linguajar. E sim, já postei coisa indevida no Facebook, mas quem não erra? Todo mundo aprende, todo mundo muda. Eu mesmo não posto tuuuuuuuuudo o que penso, mas também não sou hipócrita de apagar e fingir que não falei, como muita gente faz. Não acho absurdo que usem isso como instrumento de escolha para empregados, cada empresa tem a sua "linha", mas acho meio imbecil tantar definir qualquer pessoa por conta de sua página pessoal. É como se vissem todas as pessoas como babacas que não sabem que um trabalho tem suas responsabilidades, como se tentassem privá-las de ter uma vida própria. Pessoas são pessoas, não uma extensão da empresa. Acho isso uma coisa maligna!

Se for o caso de ficar observando perfis de pessoas "perfeitas", eu conheço alguns que, literalmente, não devia nem conviver em sociedade, mas está muito bem num emprego porque, além de ter uma retórica de fazer inveja, sabe esconder os "podres" como ninguém, porque se soubessem a verdade, nunca que tais pessoas entrariam em quaisquer empresa. Mas enfim, abafa o caso... E tenho certeza que todo mundo conhece algum colega de trabalho que beira a psicopatia, mas que está onde está porque beija o chão que o chefe pisa. Alguns podem me dizer "ah, mas para se dar bem, precisa fazer isso". Será? Será que eu tenho de vender minha opinião própria em nome da carreira? Até onde uma pessoa precisa abdicar de sua identidade, de sua ética, para manter o ganha-pão?


Pode não parecer para alguns XD, mas eu tenho planos de onde quero trabalhar um dia. Nunca escondi de ninguém que adoro trabalhar com cultura, e não é pretensão de ficar escrevendo sobre artistas globais ou coluna social. Eu não escrevo sobre bara ou BL por conta de "pornografia", eu nem considero isso pornográfico - não sei se já postei sobre isso, mas se for o caso, escrevo sobre isso em breve - e eu já vi muita gente torcendo o nariz para esses posts e achando que eu fosse um pervertido. E eu conheço jornalistas que postam conteúdo da página infâme "Orgulho de ser Hétero" do Facebook e que sai muito bem com isso, afinal é "normal" um homem postar fotos de mulheres sensuais. Será que se eu postasse foto de mulheres de biquini e posasse de heterossexual eu seria levado mais à sério? Mas enfim, se até Waldomiro Vergueiro, segundo ele próprio quando veio até Manaus para falar no Café Intercom, é visto como alguém que decidiu fazer estudos científicos dos quadrinhos como desculpa pra ler gibi na universidade, que eu posso fazer?

Por fim eu quero deixar claro uma coisa: continuarei usando Facebook e Twitter como uma ferramenta para me comunicar com os MEUS amigos e leitores. Estes, assim como eu, AMAM falar de homens bonitos, quadrinhos, games, yaoi e bara. E não são alienados ou imaturos, já que junto a isso discutimos em paralelo coisas que acontecem no país e no mundo. Acredito que as redes sociais são para isso: é um espaço para discussão de coisas sérias sim, mas para diversão também. Quem me adiciona e não gosta de quaisquer coisa dessas que posto, me exclui. E eu acho isso ÓTIMO, porque só sobram os nerds e pessoas legais, que não tem o cX preso com determinados assuntos. Creio que meus perfis nunca me deram problemas demais, só no caso de empresas muito tacanhas, mas caso eu perceba que minha liberdade de expressão está sendo oprimida, cometo um "Facebookcídio" imediato. Pra mim é oito, ou oitenta... Não vale a pena criar um perfil pessoal que você não pode, bem, ser você mesmo! E como é bem dito, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", e é isso que admiro nas pessoas. Se determinadas empresas não suportam que alguém tenha uma vida própria além daquela imagem do empregado alienado, bem, não fui feito para elas. Eu sou capaz sim, de abraçar uma empresa e trabalhar nela com todo afinco - sonho da minha vida é escrever pra uma publicação como a CULT ou para alguma revista de cinema ou de cultura gay/nerd/otaku/jovem/whatever - , mas ela deve acreditar também em mim como pessoa, não como mero instrumento de lucro.
 
 

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